Como passei de ser operadora de call center a programadora?

Mariel Quezada Gallardo
Posted by Mariel Quezada Gallardo on Sep 24, 2020 4:32:19 PM

Uma breve história de como passei dos dias de terror em um call center trabalhando 24 horas por dia e 7 dias por semana para ganhar 3 vezes mais depois de um bootcamp de 6 meses na Laboratória.

Hoje quero contar um pouco mais sobre mim para que possamos nos conhecer melhor. Acabei de completar 29 anos (justo antes de começar a pandemia) e atualmente trabalho com desenvolvimento de software. Há aproximadamente dois anos minha vida mudou de rumo quando comecei a estudar programação na Laboratória.✨ 

Antes disso, por muito tempo vivi 100% para o trabalho (no Chile utilizamos a expressão “entre 3 e o 4”, que é quando alguém vive apenas para trabalhar e nada mais), fazendo tudo que aparecia, para sobreviver. Fui garçonete, vendedora, doceira, padeira, estoquista, encarregada de inventário e também auxiliar de limpeza em um supermercado. Até que entrei no tenebroso mundo dos call centers, onde pelo menos você trabalha sentada, mas a quantidade de insultos e gritos que você tem que suportar dos clientes todos os dias enlouquece qualquer um. 🤷‍♀️ Trabalhei com isso por  dois anos antes de voltar a estudar. 

Tudo isso aconteceu porque, desde os 18 anos, tive que morar sozinha. Minha casa nunca foi um lugar seguro para mim, tive que fugir aos 12 anos pelos maus tratos do meu padrasto e pelos abusos do meu irmão mais velho. Primeiro fui morar com meus tios no sul do Chile 👩‍🌾 e, depois, fui mudando de casa em casa, incluindo pensões, casas de amigos e parentes distantes. 

Entrei na faculdade para cursar a carreira de Animação Digital, mas isso só me deixou endividada e acabei entrando em depressão. Sentia que não poderia fazer nada de bom com a minha vida e  que já havia arruinado tudo por ter escolhido uma carreira tão difícil no mercado de trabalho. Já não havia nada a ser feito porque era impensável estudar outros 5 anos. Com que dinheiro? Não tinha dinheiro para nada, às vezes tinha que juntar moedas de cinco centavos para comprar uma passagem de ônibus. 

Ontem estava revisando meu caderno da época do bootcamp (o que eu usava como agenda naquele período) e encontrei algumas anotações de entrevistas de emprego: um restaurante, por exemplo, oferecia a quantia de R$1.600,00 (pouco mais que um salário mínimo no Chile) para trabalhar 45 horas por semana. Nossa, que maravilha! 🤦‍♀️💸

Sempre tive medo de programação, pois acreditava que era coisa de nerd, mas agora sei que não poderia estar mais errada e que, qualquer pessoa pode aprender 👩‍💻, inclusive crianças. Eu sou um exemplo claro disso: passei de não saber nada para, 6 meses depois, ser chamada para uma entrevista de emprego como desenvolvedora front-end com um impressionante currículo, um lindo portfólio e uma conta no Github cheia de projetos feitos por mim. Dá para acreditar?!

Na Laboratória aprendi que os limites são impostos por nós 💪. Não há nada que não possamos aprender, nosso cérebro é elástico e pode mudar, inclusive pode superar os traumas. Você pode lidar com a depressão fazendo algo que você gosta, que te faça sentir útil, mas também que dê dinheiro para as suas necessidades básicas. Depois disso, o resto é pura felicidade, é realizar nossos desejos mais profundos. Por exemplo, no meu caso, meu maior desejo era viver em um lugar agradável e estável 🏠 onde não tivesse medo de ser despejada a qualquer momento. Hoje vivo há mais de um ano em um lindo apartamento com meu marido e somos muito felizes lá. Outro grande êxito para mim tem sido poder ajudar minha mãe com seu tratamento médico: agora ela está bem, contente e com ânimo de viver, e isso não tem preço. ❤️ 

E como foram esses 6 meses na Laboratória? Intensos. Essa é a melhor palavra. Tivemos que nos esforçar muito para aprender as coisas que não entendíamos, trabalhar com pessoas desconhecidas e nos adaptar a este modelo educativo que foge totalmente do convencional.

Nos dividíamos em grupos de 6 mulheres e tínhamos que fazer um projeto a cada uma ou duas semanas. Passei maus bocados, me estressei muito, não me dei bem com todas elas. E com certeza poderia ter feito mais, ter sido mais amigável com os instrutores (nós chamamos eles de “coaches”) e com toda a equipe, mas me custa muito ser sociável com desconhecidas (ainda assim, agradeço pelo resto da minha vida). ❤️ Lembro mais dos bons momentos que passei e das amigas maravilhosas que eu fiz. Não é fácil, mas vale a pena, pois você percebe que muitas mulheres passam o mesmo que você e, assim, criamos uma comunidade muito bonita e unida que perdura até hoje. 👭

Foi dessa maneira que passei de 0 a 100 em somente 6 meses. Depois disso fui capaz de conseguir meu primeiro trabalho por quase R$ 5.000, mais de 3 vezes o que eu ganhava em meu trabalho anterior 🙌. Além disso, fui capaz de participar de eventos de primeiro nível como o “Hackathon do Teleton 2018”, onde competimos lado a lado com especialistas da área e equipes experientes, aguentando 40 horas seguidas sem dormir e encorajando a equipe até a semifinal.🏆

Já passaram quase dois anos e ainda tenho muito mais pela frente e muitos desafios ainda virão. Quero incentivar mais mulheres como eu a poderem mudar suas vidas, a se superarem e saírem da pobreza (econômica e cultural) na qual nascemos, porque as “donas de casa” também podem aprender programação e vale a pena tentar. Se eu consegui você também consegue!

Não esqueça de me seguir no Instagram @lavandacode. Estou criando material todos os dias para ajudar mais mulheres a entrar no mundo do código.

 

*Traduzido por: RunaHR Team - Service Day 2020

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